ABRADEMI: a real história do 1º evento otaku do Brasil
A ABRADEMI, fundada em 3 de fevereiro de 1984 em São Paulo, organizou em 13 de outubro de 1996 a primeira MangáCon — o marco que a maioria dos historiadores do fandom aponta como o 1º evento de mangá e animê da América do Sul.
Antes de existir a palavra “otaku” no vocabulário popular brasileiro, já havia no país um grupo organizado de jovens, estudiosos e desenhistas tentando provar que mangá e animê eram muito mais do que um passatempo exótico. A ABRADEMI, fundada em 3 de fevereiro de 1984, foi essa primeira estrutura formal — e, em muitos sentidos, o ponto de partida do fandom organizado de cultura pop japonesa no Brasil. Na prática, é curioso perceber que a entidade nasceu quase quinze anos antes de o termo “otaku” virar gíria de internet por aqui.
O Brasil antes do “otaku”

Nos anos 1970 e início dos anos 1980, o interesse por quadrinhos e cultura japonesa já circulava em ambientes específicos, especialmente entre a comunidade nikkei e em espaços de pesquisa e difusão cultural. A própria ABRADEMI registra que suas origens se ligam à união de estudiosos de cultura japonesa, desenhistas profissionais e iniciativas anteriores, como a Comissão de Exposição de Quadrinhos do Bunkyo — criada ainda em julho de 1979 — e os debates acadêmicos liderados por Sonia Luyten na USP.
Esse contexto ajuda a corrigir uma ideia comum: o fandom de anime no Brasil não nasceu de repente nos anos 1990. O que mudou naquela década foi a visibilidade de massa, não o embrião cultural, que já existia e ganhava forma em aulas, encontros, exposições e publicações especializadas. Diferente do que muitos sites dizem, quando o Brasil “descobriu” o animê pela TV aberta, já havia mais de dez anos de trabalho de base rodando em silêncio na Liberdade.
A fundação da ABRADEMI

A ABRADEMI nasceu em 1984 com um objetivo claro: promover intercâmbio entre desenhistas de HQ e ilustração, difundir técnicas, valorizar amadores e tratar mangá no sentido amplo de história em quadrinhos e desenho animado. Em outras palavras, ela não surgiu apenas para reunir fãs, mas para criar uma base cultural, pedagógica e institucional para esse universo. Entre os nomes por trás da fundação estão a professora Sonia Maria Bibe Luyten (USP), o desenhista Roberto Kussumoto e o jornalista Francisco Noriyuki Sato, que presidiria a entidade por diversas gestões ao longo das décadas seguintes.
O site da associação afirma que foi ali que aconteceram alguns “primeiros” históricos: primeiro curso básico de HQ, primeiro fanzine de mangá, primeiros debates e, depois, os primeiros eventos estruturados de mangá e animê no país. Essa sequência revela a importância da entidade como organizadora de um campo que ainda estava em formação. Um detalhe que reforça isso: no mesmo ano da fundação, em setembro de 1984, a ABRADEMI já participava da recepção de Osamu Tezuka ao Brasil, montando uma mostra de desenhistas brasileiros ao lado da exposição do “Deus do Mangá” no MASP — um feito e tanto para uma entidade com poucos meses de vida.
As aulas e os concursos

Um dos pontos mais importantes da matéria é que a ABRADEMI não se limitava a celebrar o mangá; ela formava desenhistas. Em 20 de maio de 1984, foi realizado o primeiro curso básico de histórias em quadrinhos no Bunkyo, seguido por novas turmas e atividades de acompanhamento de roteiros e desenhos.
Esses cursos alimentaram diretamente os concursos internos e as mostras da associação. O Abrademi Contest — o primeiro concurso de mangá do Brasil — foi lançado em 1996, no mesmo ano da primeira MangáCon, para incentivar jovens desenhistas, especialmente alunos dos cursos, e revelou muitos artistas novos nas edições que se seguiram. Vale a ressalva: nem toda edição do concurso teve a mesma visibilidade, e o próprio acervo da entidade reconhece lacunas na documentação de vencedores das primeiras décadas — um limite real de qualquer reconstrução histórica desse tipo.
| Ano | Marco | Por que importa |
|---|---|---|
| 1979 | Comissão de Exposição de Quadrinhos do Bunkyo | Embrião institucional que antecede a própria ABRADEMI |
| 1984 | Fundação da ABRADEMI (3 de fevereiro) e visita de Osamu Tezuka (setembro) | Nascimento formal da entidade e primeiro grande evento de peso |
| 1996 | Abrademi Contest e 1ª MangáCon (13 de outubro) | Primeiro concurso de mangá e primeiro evento de mangá/animê da América do Sul |
| 2000 | Última edição da MangáCon no formato original | Fim de um ciclo, sucedido por formatos como a Anime Summer Fest (2001) |
Irlayne Silveira e a formação de gerações

No material que trouxemos para esta matéria, Irlayne Silveira aparece como uma figura simbólica dessa ponte entre a formação da ABRADEMI e a geração posterior de professores e artistas. Há registros públicos dele como professor de mangá e ilustrador, com passagem pelos cursos da ABRADEMI e premiação da entidade em categoria de ilustração.
O que percebemos ao cruzar essas fontes é que a ABRADEMI não apenas organizava eventos, mas funcionava como uma incubadora de talentos. É nesse ambiente que nomes como o de Irlayne ganham relevância como exemplo de continuidade histórica entre o aprendizado dos anos 1980 e a profissionalização posterior — o mesmo fio que liga a Liberdade dos anos 80 a comunidades de fãs espalhadas pelo Brasil hoje, como já mostramos na cobertura sobre a comunidade otaku em Volta Redonda.
Do curso ao palco

A virada histórica veio quando uma festa de entrega de prêmio de desenho acabou crescendo até se tornar a MangáCon, realizada em 13 de outubro de 1996 no salão social da Associação Shizuoka do Brasil, na Liberdade, em São Paulo. A ABRADEMI relata que o evento nasceu da divulgação de um concurso de mangá, recebeu mais trabalhos do que o esperado e foi ampliado com exibição de vencedores, homenagens, apresentações e o primeiro concurso de cosplay do país — vencido por uma fã fantasiada de Saori, de Cavaleiros do Zodíaco.
Esse detalhe é importante porque mostra como o ecossistema dos fãs foi se transformando. O que antes era um círculo de estudo e desenho virou evento, desfile, performance e celebração coletiva — algo muito próximo do que hoje o público reconhece como cultura otaku, embora esse rótulo ainda não existisse naquele primeiro momento. A MangáCon seguiu acontecendo anualmente até o ano 2000; depois disso, a ABRADEMI migrou para outros formatos, como a Anime Summer Fest, em 2001.
O papel histórico da ABRADEMI
A ABRADEMI foi pioneira ao institucionalizar o mangá no Brasil. Ela criou um vocabulário, um circuito de aulas, um espaço de encontro e um modelo de evento que antecede e influencia a cultura de convenções e fãs que viria depois. Por isso, quando se fala em “primeiro encontro de apaixonados por animações japonesas”, o nome da associação aparece como uma referência inevitável.
A própria entidade enfatiza que seu trabalho começou quando “ninguém acreditava que o mangá faria sucesso” e que sua atuação incluiu desde o primeiro fanzine até o primeiro concurso de cosplay no Brasil. Em termos jornalísticos, isso permite enquadrar a ABRADEMI não como uma curiosidade nostálgica, mas como uma instituição fundadora de uma linguagem cultural que hoje movimenta mídia, eventos, cursos e mercado.
Veredito do Especialista
Para quem vale a pena: quem escreve, pesquisa ou estuda a história do fandom brasileiro de mangá e animê encontra na ABRADEMI a origem documentada mais sólida que existe — datas, nomes e eventos verificáveis, e não apenas lenda de fórum. Também vale para quem quer entender por que São Paulo e a Liberdade seguem centrais na cultura otaku nacional.
Para quem NÃO vale a pena: quem busca uma história “de fã para fã”, cheia de memes e referências recentes, pode achar o material da ABRADEMI burocrático demais — é, afinal, o arquivo de uma associação cultural, não um canal de entretenimento. E quem espera uma lista completa e cronológica de todos os vencedores de todas as edições do Abrademi Contest vai esbarrar em lacunas reais no acervo disponível publicamente.
Perguntas Frequentes
Qual foi o primeiro evento otaku do Brasil?
A MangáCon, realizada pela ABRADEMI em 13 de outubro de 1996 em São Paulo, é considerada o primeiro evento de mangá e animê da América do Sul, incluindo o primeiro concurso de cosplay do país.
O que é a ABRADEMI?
ABRADEMI é a Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações, fundada em 3 de fevereiro de 1984 em São Paulo, pioneira em cursos, fanzines e eventos de mangá e animê no Brasil.
Quando a ABRADEMI foi fundada?
Em 3 de fevereiro de 1984, no bairro da Liberdade, em São Paulo, por um grupo de estudiosos de cultura japonesa e desenhistas profissionais.
A MangáCon ainda acontece?
Não. Foi realizada anualmente até o ano 2000; depois disso, a ABRADEMI passou a organizar outros formatos de evento, como a Anime Summer Fest, em 2001.
A palavra “otaku” já existia quando a ABRADEMI foi criada?
Não como termo popular. Em 1984 o público ainda não usava “otaku” no dia a dia; o rótulo só se popularizou no Brasil nos anos 1990, décadas depois da fundação da entidade.
Quem fundou a ABRADEMI?
Entre os fundadores estão a pesquisadora Sonia Maria Bibe Luyten (USP), o desenhista Roberto Kussumoto e o jornalista Francisco Noriyuki Sato, que presidiu a entidade por várias gestões.
