Descobrindo Tokusatsu, super-heróis japoneses

Heróis de Tokusatsu e Metal Heroes reunidos

Vocês certamente conhecem os Power Rangers ou lembram com carinho de Bioman e Jaspion. Mas o que muitos não sabem é que, por trás dessas séries cultuadas, existe uma engrenagem colossal da indústria de entretenimento japonesa: o Tokusatsu! Vamos mergulhar juntos na história dessa instituição que molda gerações há mais de 60 anos.

Artigo originalmente publicado em setembro de 2013 na revista Pop Fixion # 0. Atualizado para preservar a história dos heróis.

O Tokusatsu não é apenas um gênero de TV; é uma arte. Caracterizado pelo uso intensivo de efeitos especiais (a tradução literal de tokushu satsuei), ele tem raízes profundas na alma do Japão. Suas origens remontam ao teatro tradicional Kabuki, com suas lutas coreografadas, e ao Bunraku, que nos deu a forma mais primitiva de efeito especial: as marionetes. Embora seja difícil cravar uma data exata, convencionou-se que o gênero explodiu nos anos 50 com o “Rei dos Monstros”, o Godzilla. Essa década foi o berço do subgênero Kaiju Eiga (cinema de monstros), abrindo caminho para lendas como Gamera e Daimajin.

Logo, o Tokusatsu se democratizou. Todos os estúdios queriam sua fatia do bolo. Os anos 60 viram o nascimento do gigante prateado, Ultraman. Mas foi a década de 70 que mudou o jogo globalmente. Primeiro, o motoqueiro mascarado Kamen Rider acelerou em 1971. Depois, em 1975, a Toei Company criou o conceito que conquistaria o planeta: os Super Sentai (conhecidos no Brasil como Changeman, Flashman e, mais tarde, adaptados nos EUA como Power Rangers pela Saban). E a fábrica de sonhos não parou: nos anos 80, fomos apresentados aos Metal Heroes (Jaspion, Jiraiya, e a adaptação Beetleborgs). O gênero é diverso, mas todos compartilham o mesmo cimento: a magia dos efeitos práticos e a luta inabalável do bem contra o mal.

Ultraman lutando contra monstros gigantes Kaiju

A Fórmula Mágica: Códigos e Explosões

Com a criação dos Super Sentai, o Tokusatsu domina as manhãs de domingo no Japão há décadas. Desde o início dos anos 2000, com o renascimento da franquia Kamen Rider (iniciada com Kuuga), milhões de crianças — e adultos! — correm para a frente da TV para o sagrado “Super Hero Time”. Mas por que essas séries nos prendem tanto? A resposta está na estrutura.

Diferente de animes longos onde a trama se arrasta, o Tokusatsu entrega satisfação imediata. Seja Kamen Rider ou Super Sentai, a regra é o “Monstro da Semana”. Você sabe o que vai acontecer, e é exatamente isso que você quer ver. Especialmente nos Super Sentai, essa “camisa de força” narrativa é um ritual que adoramos:

  • A vida cotidiana: Vemos nossos heróis em sua rotina normal.
  • O ataque: O monstro da semana surge e causa o caos.
  • O drama: Os heróis duvidam de si mesmos; os vilões comemoram cedo demais.
  • A virada: Transformação! A primeira batalha é vencida pelos heróis.
  • O agigantamento: O monstro não desiste e retorna gigante.
  • A batalha final: Hora dos robôs gigantes (Mecha) entrarem em ação.
  • A lição: Tudo volta ao normal, com um aprendizado para o próximo episódio.

Essa repetição não é falha, é design. Ela garante nossa dose semanal de adrenalina enquanto os personagens evoluem. Mas não se enganem: o sucesso não vem só das explosões. Essas séries são escolas de valores. Elas ensinam amizade, coragem, trabalho em equipe e tolerância. Para os pais, é uma programação segura; para nós, é a prova de que o bem sempre vale a pena.

A dinâmica de grupo é genial. Temos o vermelho (o líder impulsivo “cabeça-quente”), o azul (o estrategista frio), a rosa (o coração da equipe), e o preto ou verde (muitas vezes o “lobo solitário”). É impossível assistir e não se identificar com pelo menos um deles.

Exemplo de equipe colorida de tokusatsu em pose de combate

Muito Mais que TV: Uma Máquina de Sonhos (e Brinquedos)

Vamos ser honestos: uma das maiores forças dessas séries é que elas são feitas para vender. E nós adoramos comprar! Elas nascem da união poderosa entre estúdios de TV e fabricantes de brinquedos (como a Bandai). A criatividade dos roteiristas precisa andar de mãos dadas com a engenharia dos brinquedos.

No caso dos Super Sentai, isso é elevado à categoria de arte. A “coletabilidade” é insana.
Para as crianças (e colecionadores), não basta ter o líder. Você precisa da equipe toda. Os fabricantes sabem disso e criam detalhes únicos em cada capacete, luva e bota, baseados nos totens animais ou temas da temporada. Existem linhas para todos os bolsos: desde bonecos de vinil simples para brincar na terra, até figuras de luxo para expor na estante (SH Figuarts, estamos olhando para vocês).

E não podemos esquecer o “Santo Graal” do colecionismo: os Robôs.
A genialidade está na combinação. Você compra os veículos separados, e eles se unem fisicamente — tal qual na TV — para formar o robô gigante. E quando você acha que acabou, a série introduz um segundo robô que se acopla ao primeiro. É um ciclo viciante e maravilhoso que movimenta milhões de ienes e dólares, mantendo a indústria viva e pulsante.

Kaiju: A História dos Nossos Monstros Favoritos

Falando em gigantes, precisamos reverenciar o Godzilla. Ele é o representante máximo dos Kaiju, monstros que aterrorizam e divertem o Japão há sessenta anos.
Curiosamente, a TV mudou a personalidade dessas bestas. Nos primeiros filmes, eles eram pura destruição ou metáforas para medos da guerra. Mas, com a popularização do Tokusatsu na TV nos anos 70, os monstros ganharam camadas.

Eles deixaram de ser apenas feras irracionais. Godzilla, por exemplo, já foi vilão, força da natureza e até salvador da humanidade. Eles ganharam personalidade. O gênero Kaiju Eiga continua vivo e rugindo, influenciando Hollywood (como visto em “Círculo de Fogo” de Guillermo Del Toro) e garantindo que, não importa a nossa idade, sempre olharemos para o horizonte esperando ver um gigante surgir.

Deixe um comentário